09 junho 2006

"NESTA COPA, EU TAMBÉM SOU ÁFRICA"

Boa parte do mundo está, neste momento, com os olhos voltados para a África. Quatro países africanos participam pela primeira vez, de uma Copa do Mundo de Futebol.
Em Angola, no dia do embarque da Seleção, o País parou para comemorar.
Aqui, Domingo, quando a Seleção de Futebol de Angola entrar em campo para enfrentar Portugal, um pedaço da Bahia vai torcer ao vivo! É a torcida dos afro-baianos e de africanos residentes em Salvador, que vão estar reunidos na Casa de Angola - na Baixa dos Sapateiros.
Mas não é só o jogo.
Vão ser realizados debates e exibição de vídeos sobre os paises africanos que estão participando da Copa. Um dos objetivos, é reafirmar a herança africana na identidade dos negros baianos, mantendo forte a conexão com a Mãe África.
O encontro vai ter a participação do Afoxé Filhos do Congo, e a iniciativa é do Instituto de Mídia Étnica.

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06 junho 2006

DE ANGOLA

Histórias de simplicidade
Luanda
Dona Mariquinha é uma mulher muito decidida. Viu a guerra de vera, cresceu com ela e sabe sobreviver ao pós-guerra, pois a terra é dela e ninguém toma, mesmo que seja duro demais contar os mortos à beira da estrada.Com mais tempo, farei o perfil de Mariquinha. Gostaria apenas de dizer o quanto ela é dedicada, alegre e disposta. Não reclama de trabalhar para um estrangeiro - talvez não fosse tão gentil com um português, o colonizador posto a correr em 1975 - e estima muito o Brasil, principalmente a Bahia, onde acredita estarem seus mais remotos ancestrais.
Mariquinha se ofereceu para ir ao Jumbo fazer as compras da minha casa. Foi com o motorista e, com dinheiro contadíssimo (aqui as coisas são caras e não se pode gastar como em Brasília, Salvador ou João Pessoa, por exemplo), esticou o quanto pôde os kwanzas (moeda local: 80 kwanzas equivalem a um dólar norte-americano).
Comprou o básico e, para me agradar, trouxe duas lindas bandejas de rabadilha e vazia.- Isto é cousa rara, doutore - contou-me ela a novidade com sotaque lusitano. Fiz-me de impressionado e fiquei a pensar como ela adivinhara o meu gosto por esse tipo de comida, sem saber que não se trata, verdadeiramente, de coisa fina ou rara no Brasil, mas de uma preferência regional, nordestina. Intuição, só pode ser, de quem aprendeu observando e não teve tempo de folhear um livro em meio às rajadas de metralhadoras de sua infância ou juventude.
Estamos numa situação de pós-guerra, de reconstrução. Muitas coisas foram destruídas, famílias destroçadas, mas os valores permaneceram. Tem gente, sem pernas, que anda de cabeça erguida. Elas tinham pernas antes, mas as minas estouravam quando civis passavam e foram fazendo vítimas, que se sabem parte integrante de uma guerra de 30 anos, mais duradoura que a guerra de Tróia, porém menos valorizada porquê uma luta de negros e africanos.
Acabo de chegar em casa. São 19h30, 15h30 no Brasil. Um breu só. Sorte que o meu colega Adênio havia me ensinado a manha do motor a óleo, cousa de que só tivera conhecimento por intermédio dos meus pais, que contavam histórias da luz em Princesa. Lá, não tinha energia da Chesf e o motor só funcionava até as 22h, após o que tudo voltava ao normal e os mais ousados aproveitavam para uma chamego a mais nos becos do Território Livre.
Aqui, são constantes as quedas de energia. Sorte que temos motor. Milhões não o têm. Ficam às escuras, mas uns dão graças a Deus e outros ao MPLA (Movimento Popular pela Libertação de Angola) pelo fato de a escuridão não ser clareada com balas traçantes que vêem pela TV Globo todos os dias no Rio de Janeiro.
Pois é, em Angola se vê, basicamente, a Rede Globo. E algum canal português. As miúdas já ensaiam sotaque carioca, chiando e tudo, dando rabissaca e coisa e tal. Mas, quando estão bravas, xingam em kimbundo, idioma (não digo dialeto, ou dialecto, como se escreve por aqui) em que o coração tem um nome cheio de África e rima: muchima! As relações sociais são complexas, mas as coisas são simples. Um aspecto dessa complexidade: dificilmente se formam turmas de amigos para sair, ir a festas ou beber em bares. Uma atmosfera arredia e desconfiada cerca o povo angolano. Também pudera: confiaram demais e foram escravizados e colonizados durante séculos!
Exemplo de simplicidade: a mulher de um jornalista angolano abraçou Raimundo Lima, jornalista e empreendedor baiano em Angola, e disse, chorando de emoção:
- O seu trabalho nos permitiu comer.
- E antes não comia? -, perguntou Raimundo.
- A gente tomava chá – disse a esposa do jornalista. E Raimundão, emotivo que só, só fez chorar.


Miguel Lucena – Delegado, Diretor de Comunicação da Polícia Civil do Distrito Federal e Jornalista.

* retirado do site CLAUDIO HUMBERTO

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OLODUM NA COPA



A TARDE on line
João Pitombo

Cabelos trançados em verde e amarelo. Dread locks, roupas e instrumentos com as cores do Brasil. O Olodum fez festa no Aeroporto de Salvador antes do embarque para a sua turnê na Europa. Primeira parada: Alemanha. O afro-reggae baiano será o único representante do Brasil a tocar em Brandenburger, Berlim, na abertura da Copa do Mundo. O show acontecerá no dia 07 de junho, quarta-feira, e contará com a presença de Pelé e de representantes da delegação brasileira na Alemanha. O show na abertura da copa será o primeiro de uma série de espetáculos que a banda fará na Europa. Ao todo, serão nove países. Na Alemanha, serão dez apresentações, sedo que cinco delas farão parte da programação oficial da copa.

Além do show de abertura, serão realizadas outras quatro apresentações, que fazem parte do Public Viewing Festival. Do Olodum, foram 18 músicos, incluindo o cantor Tonho Matéria, que apresentará na Europa a nova música de trabalho da banda “Tá todo mundo ligado”.
Esta é a quarta Copa do Mundo em que o Olodum se apresenta. Desde 1994, nos Estados Unidos, a banda é presença garantida no principal palco do mundo da bola. O presidente do Olodum, João Jorge Rodrigues, ressaltou a importância que a Copa do Mundo tem na história da entidade. “O Olodum na Copa já é uma tradição. É uma honra e um orgulho para nós representar o Brasil”, afirma Rodrigues.
O cantor do Olodum, Tonho Matéria, também ressaltou a importância do evento para a banda, mostrando confiança na atuação da Seleção Brasileira na Copa. “Eu vejo muita segurança, muita união nos nossos jogadores. Esse time tem uma energia incrível”, diz o cantor. Além do Brasil, Matéria admite que também vai torcer por uma boa atuação dos times africanos. “A seleção de Angola, por exemplo, está indo para a copa do mundo pela primeira vez.
Espero que eles façam bonito”. No momento do embarque, em Salvador, a banda mirim do Olodum, composta por dez percussionistas apresentou-se no saguão do Aeroporto. As paulistas Creuza de Souza e Beth Corso, que acompanhavam o show da banda mirim, se disseram maravilhadas com a banda. “Eu nunca tinha visto o Olodum ao vivo. Só pela televisão. É uma energia maravilhosa” disse Creuza. O português Pedro Carmo, que estava embarcando de volta para a Europa, também estava vendo o Olodum pela primeira vez. Quanto à Copa do Mundo, ele espera que Portugal seja a campeão. “A Seleção Brasileira é favorita. Ela tem os melhores do mundo, um time muito superior. Mas eu acredito que Portugal poderá levar o título” afirma. Enquanto os titulares estarão na Alemanha, a equipe reserva do Olodum também já confirmou presença no Pelourinho nos dias dos jogos do Brasil e nos domingos durante a Copa. Comandando a “Torcida Brasil Olodum”, cerca de 100 percussionistas farão a festa de baianos e turistas presentes no Pelô. Como já é de praxe, será tocada a já famosa versão da banda para o Hino Nacional.

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04 junho 2006

DIDA - BAIANO - FALOU

O goleiro da seleção brasileira superou a timidez para "enfrentar" os jornalistas numa entrevista coletiva. Articulado e politicamente correto, Dida foi especialmente efetivo quando comentou o fato de ser o primeiro goleiro negro da seleção desde Barbosa, titular na Copa de 50.
"Sou muito feliz em poder quebrar um tabu de mais de 50 anos. Barbosa foi crucificado em 50 quando na verdade ele era parte de um grupo. É uma coisa horrível só lembrar dele naquele momento, pois sem sombra de dúvidas ele merecia ser lembrado só pelo fato dele ser titular da seleção numa Copa, realizada no Brasil", disse Dida.
Além de quebrar o tabu de um negro como titular no gol, Dida pretende resgatar a derrota de Barbosa em 50.
"Quero ser campeão. Quero vencer, Quero jogar bem. Vou fazer o máximo para isso", falou.
Dida confessa a timidez, mas revela que além de tímido ele parece distante por outros motivos. "Quando entro no treino estou tão concentrado que nem percebo as 5 mil pessoas olhando", disse, respondendo a uma pergunta sobre a torcida que acompanha os treinos do Brasil em Weggis, Suíça.
O goleiro ainda falou do titular do penta Marcos, "o melhor do mundo na Copa de 2002," do ambiente na seleção e de seus sonhos.
"Meu sonho principal é estar na seleção e disputar uma Copa do mundo, estou dando o máximo", afirmou.
O preparador de goleiros do Brasil, Wendell, também falou, ao lado de Dida, reiterando o foco e a determinação do goleiro. "Conheço o Dida desde as categorias de base da seleção brasileira. Sei bem o que ele quer", disse. Dida, pelo visto, também sabe.

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MULHER NEGRA COM HISTÓRIA

FRANCISCA
Em 1814 eclodiu uma das mais violentas insurreições de negros mulçumanos em Salvador. A base da insurreição eram as armações - estabelecimentos de pesca - e a idéia era sublevar os escravos que trabalhavam nesses locais, estendendo o movimento a todo Recôncavo Baiano.Francisca e seu companheiro Francisco Cidade, ambos escravos, eram mencionados em papéis escritos em árabe, apreendidos pelas autoridades, como “Rainha” e “Rei”, e desempenharam o papel de coordenar o levante.A pretexto de custear os batuques, as danças de sua nação, Francisca e seu companheiro, coletavam dinheiro entre os escravos e percorrendo as armações e as povoações, articulavam a insurreição com os líderes desses lugares e sempre com o pretexto da dança faziam a intermediação entre o centro da cidade e as armações, para receber e transmitir instruções aos companheiros.
A casa de Francisca em Salvador era o esconderijo onde eram reunidas as armas.
Sufocada a rebelião, Francisco Cidade foi condenado à morte mas, comutada a pena, deportaram-no para um presídio na África. Não se tem notícia sobre a pena ou destino de Francisca.
Fonte: Cartilha “Mulher Negra tem História”Alzira Rufino, Nilza Iraci, Maria Rosa, 1987.

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ATUAR

Sentir, refletir, conhecer e agir:
Não necessariamente nesta ordem, as relações de ensino-aprendizagem devem contemplar, entre outras, estas dimensões. Um conteúdo é aprendido se apreendido pelo corpo, se provoca mudanças, na percepção da realidade, no estudo de novos conteúdos e se modifica as atitudes. Quantas crianças negras fracassam na escola, porque são “inquietas”, porque insistem em levar o corpo para todos os espaços, inclusive para o espaço escolar?

Com base nestes princípios o Ceert - Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades - promotor do “Prêmio Educar para a Igualdade Racial. Experiências de promoção da igualdade racial/étnica no ambiente escolar” ao pensar o evento que premiaria nove educadores que têm feito de sua ação docente uma ação a favor de uma sociedade igualitária, distribuiu as atividades entre o sentir, o refletir, o conhecer e o agir: houve oficinas de sensibilização sobre auto-estima, canto e estética negra; mini-cursos sobre identidade da criança negra, a formação profissional para a inclusão da questão racial na educação e as contribuições do direito para as relações raciais; workshop sobre lendas e mitos na sala de aula e sobre a cosmovisão indígena, além de aulas abertas de dança afro-brasileira, orquestra de berimbaus e shows musicais. Um dos objetivos era o de possibilitar a educadores(as) a experiência do que pode acontecer no ambiente escolar, quando se fala de promoção da igualdade racial/étnica! Pode acontecer muito! Pode ter emoção, estudo, festa, choro, debate, pesquisa, “sabor de quero mais”, sorrisos, olhares negros dizendo “presente!”, não para responder a chamada, apenas para cumprimentar os convidados/anfitriões. Quando se decide promover a igualdade, todos viram donos da casa e convidados. Vale lembrar que o evento só se realizou, graças às parcerias e apoios de outras entidades e de setores do poder público e empresarial. Para se educar à igualdade racial/étnica são necessários esforços de toda a sociedade.

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